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Edição de setembro de 2002

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UM DISCO

Texto: Lula Freire
 


 

Existe um antigo preconceito, atualmente em crescente desuso, que sempre atribui, injustamente, uma melhor performance em qualquer função exercida por um homem como sendo superior ao mesmo desempenho de uma mulher na mesma função. Evidentemente, o preconceito atinge a mulher que sob os olhos de alguns ainda estaria, através dos tempos, sendo considerada como predestinada e apta unicamente para ser mãe e companheira, e não para o exercício de qualquer outra atividade. Aos poucos foi a mulher conquistando, e em diversos casos com excelência, o seu lugar em todos os campos da vida moderna. Praticamente não existe nenhum setor onde não se encontre uma destacada participação feminina, seja nas profissões liberais, na política, na ciência, e nas artes. Na música, especialmente mais como cantoras do que como instrumentistas, as mulheres já alcançaram justo reconhecimento, sendo mundialmente famosas grandes personalidades que foram surgindo nos mais diversos países de todo o mundo, marcando definitivamente sua presença. No entanto, como instrumentistas,    quando     surgem,    geralmente causam menos surpresa do que causariam anos atrás, quando não era comum, por exemplo, ver-se uma figura feminina numa "big band" ou mesmo em pequenos conjuntos musicais. Se por um lado a presença da mulher nas grandes sinfônicas de Nova York, Berlim ou Londres é considerada normal, na música popular ainda é uma surpresa quando aparecem instrumentistas de alta qualidade, que, quando sobressaem ainda têm de conviver com um resíduo do tal preconceito, pois, até mesmo através de uma das formas de serem elogiadas, não faltará alguém para a elas se referir dizendo que "ela toco como homem"... Na verdade não é bem assim e um dos maiores e melhores exemplos disso é o brilho de Vera Figueiredo no variado cenário da música brasileira. Pouco comum mesmo foi a escolha do instrumento que Vera dedicou-se a estudar e através dele, e com ele, transformar-se certamente numa das mais importantes, senão a mais importante referência quando se observa o mais perfeito domínio da difícil arte da percussão. Sendo historicamente tocada por homens, até mesmo pela resistência e energia que exige, a "bateria" nas mãos de uma mulher não deixa de ser pouco comum. No caso de Vera Figueiredo, a emoção vai um pouco mais além, pois a surpresa para quem a assiste salta imediatamente para o patamar do êxtase, tal a exuberante qualidade técnica de sua performance. Além de percussionista e compositora, Vera comanda os músicos que com ela se apresentam, e seja em que andamento for, em nenhum instante deixa-se de perceber que ela realmente lidera o grupo com seus ágeis e impressionantes movimentos. Quem assiste, se fechar os olhos tem a sensação de que Vera não é uma só, pois os sons que produz e irradia são os sons de uma verdadeira banda, que magicamente enche o espaço com a música com elevada temperatura, nítida forma e radiosas cores. Neste CD que agora chega ao mercado de discos brasileiros, viaja-se ao lado da percussionista com extrema segurança, pois uma possível e eventual falha técnica não ocorre em nenhum momento. Assim mesmo, no entanto, recomenda-se ao ouvinte que aperte os cintos, ao menos para conter uma justificada emoção que poderá leva-lo ao abandono definitivo do desejo de aceitar a volta para o mundo do silêncio. Para o público brasileiro e sem nenhuma dúvida internacional, o CD de Vera Figueiredo é um belo e vigoroso presente musical. E acabando com o velho preconceito, chegará o dia em que ao escutar um extraordinário e notável percussionista, certamente alguém exclamará: "É bom mesmo, toca como Vera Figueiredo".


FAIXAS

1. Vera Cruz Island - Um clima de nordeste envolve esta primeira faixa, no mix que insinua o contemporâneo com o ingênuo tradicional.

2. Tererê - Aqui o mix é de um misterioso samba com um acentuado tempero do Caribe.

3. Devagar - A mudança no andamento logo no começo da faixa dá bem a idéia do tempo que a líder do grupo determinou, com a precisão que teria de ser rigidamente seguido. E assim foi.

4. Renata - Um delicado momento do CD, quando Vera Figueiredo presta uma terna e doce homenagem a sua mãe.

5. Double V - Os múltiplos desenhos na percussão de Vera colorem todo o correr da faixa, pontuados em alguns instantes pela presença tímida de um versinho musical que nos remete alegremente aos tempos passados.

6. Deep Inside - Talvez a mais bela peça melódica do CD. Uma balada romântica e sensual em tons de noites calmas enluaradas.

7. Reaching Another Day - A Escola de Samba Vera Figueiredo desfila nas fantasias alegres das cordas da guitarra, do piano e do baixo, levados com segurança até o fim do percurso.

8. Reverse - Um alegre chorinho não poderia faltar neste CD, onde Chiquinha Gonzaga é gostosamente homenageada. Uma distraída viagem ao anteontem de nós.

9. Chamamé - Mais uma marca brasileira num entusiasmado arranjo, destacando-se o "redondo" acordeom de Elias Resende.

10. Mr. Banana - O grande baterista Milton Banana recebe uma justa homenagem de sua admiradora, que demonstra neste CD ser tão brilhante quanto ele.

11. Figão's House - Nesta faixa dedicada ao seu pai, Vera Figueiredo utiliza os metais de forma vigorosa e inteligente, embalados no teclado de Maurício Marques num sólido e firme andamento. Das melhores faixas do CD.

12. Cai na Real - Um bailado entre os componentes do grupo, no mesmo balanço alegre e jovial.

13. Dave - Uma performance das múltiplas variações do grupo com um extravagante sabor avant-garde.

14. Saudade - Preparada pela poesia, a faixa final despe-se do CD, deixando... saudade.


 

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